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terça-feira, 27 de setembro de 2011



Se dormir é morrer,
não adormecer mata.
Após duas
noites brancas, escrevo com a mesma agilidade de um caracol que caiu num copo de sangria.







Luís Filipe Borges, in Revista Tabu




terça-feira, 7 de junho de 2011

A nossa Ria, aos olhos do nosso Nobel


É um momento solene.
Aí para baixo é a ria de Aveiro

«É um momento solene. Aí para baixo é a ria de Aveiro, quarenta quilómetros de costa, vinte quilómetros para o interior, terra firme e água rodeando, todas as formas que podem ter as ilhas, os istmos, as penínsulas, todas as cores que podem ter o rio e o mar. O viajante fez bem as suas orações: não há vento, a luz é perfeita, as infinitas águas da ria são um imóvel lago. Este é o reino do Vouga, mas não há-de o viajante esquecer as ajudas da arraia-miúda dos rios, ribeiras e ribeirinhos que das vertentes das serras da Freita, de Arestal e do Caramulo avançam para o mar, alguns condescendendo afluir ao Vouga, outros abrindo o seu próprio caminho e encontrando sítio para desaguar na ria por conta própria. Digam-se os nomes de alguns, de norte para sul, acompanhando o leque desta mão de água: Antuã, Ínsua, Caima, Mau, Alfusqueiro, Águeda, Cértima, Levira, Boco, fora os que só têm nome para quem vive à borda deles e os conhece de nascença. Se este tempo fosse de estivais lazeres, estariam as estradas em aflição de trânsito, as praias em ânsia de banhos, e nas águas não faltariam as embarcações de folguedo mecânico ou à vela. Mas este dia, mesmo de tão formoso sol e e tão aberto céu, é de alto Inverno, nem sequer está a Primavera em seus primeiros ares. O viajante, pelo menos assim quer acreditar, é o único habitante da ria, além dos seus naturais, homens e bichos da água e da terra. Por isso (todo o bem há-de ter sua sombra) estão as salinas desertas, os moliceiros encalhados, os mercantéis ausentes. Resta a grande laguna e a sua silenciosa respiração azul. Mas aquilo que o viajante não pode ver, imagina, que também para isso viaja. A ria, hoje, tem um nome que bem lhe quadra: chama-se solidão, fala com o viajante, ininterruptamente fala, conversas de água e limosas algas, peixes que param entre duas águas, sob a reverberação da superfície. O viajante sabe que está a querer exprimir o inexprimível, que nenhumas palavras serão capazes de dizer o que uma gota de água é, quanto menos este corpo vivo que liga a terra e o mar como um enorme coração. O viajante levantou os olhos e viu uma gaivota desgarrada. Ela conhece a ria. Vê-a do alto, risca com as pendentes patas a polida face, mergulha entre o moliço e os peixes. É caçadora, navegante, exploradora. Vive ali, é ao mesmo tempo gaivota e laguna, como laguna é este barco, este homem, este céu, esta profunda comoção que aceita calar-se.»

José Saramago
Viagem a Portugal, 1981

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Física Moderna - Teoria da Relatividade



O tempo... O que és tu, ó tempo?
Eu não te vejo, mas tu estás a passar. Eu sei que sim! Não és uma grandeza palpável, nem visível, mas meço-te. Qual a tua velocidade? Será a velocidade da luz? Então mas tu, tempo, tens velocidade? Como é isso possível? Não é a velocidade que é o deslocamento percorrido num certo intervalo de tempo? Mas também, ó tempo, tu não estás estático, ai isso é que não estás! Não sei o que és, mas estou a sentir a tua falta!

Ó tempo, dilata-te!

domingo, 1 de maio de 2011

A arte de ser feliz


Houve um tempo em que a minha janela
se abria sobre uma cidade que parecia
ser feita de giz. Perto da janela havia um
pequeno jardim quase seco.
Era uma época de estiagem, de terra
esfarelada, e o jardim parecia morto.
Mas todas as manhãs vinha um pobre
com um balde e, em silêncio, ia atirando
com a mão umas gotas de água sobre
as plantas. Não era uma rega: era uma
espécie de aspersão ritual, para que o
jardim não morresse. E eu olhava para
as plantas, para o homem, para as gotas
de água que caíam dos seus dedos
magros e o meu coração ficava
completamente feliz.
Às vezes abro a janela e encontro o
jasmineiro em flor. Outras vezes
encontro nuvens espessas. Avisto
crianças que vão para a escola. Pardais
que pulam pelo muro. Gatos que abrem
e fecham os olhos, sonhando com
pardais. Borboletas brancas, duas a
duas, como que reflectidas no espelho do ar.
Marimbondos que sempre me parecem
personagens de Lope de Vega. Às
vezes um galo canta. Às vezes um
avião passa. Tudo está certo, no seu
lugar, cumprindo o seu destino. E eu
sinto-me completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas
felicidades certas, que estão diante de
cada janela, uns dizem que essas coisas
não existem, outros que só existem
diante das minhas janelas, e outros,
finalmente, que é preciso aprender a
olhar, para poder vê-las assim.

Cecília Meireles

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

A Crítica dos Elogios!



À coisa de duas semanas, nos Coliseus, os Deolinda acabaram os seus concertos com algo, dizem, de interventivo: "Que parva que sou!" Acontece que sinto uma certa indignação pela importância dada a esta "música de intervenção". Tanto assisto a gerações de agora, como a gerações mais antigas louvarem e aplaudirem estarrecida e calorosamente esta música; gerações que parecem ter esquecido as verdadeiras músicas de intervenção. As canções que movimentavam multidões e mudavam opiniões. Melodias intervencionistas que apontavam o dedo, directa ou indirectamente a quem mandava, em tempos de censura e ditadura. Tempos em que eles comiam, eles comiam tudo, eles comiam tudo e não deixavam nada, em que o sonho era uma constante da vida, concreta e definida, como outra coisa qualquer; tempos em que o mundo era composto de mudança tomando sempre novas qualidades. Tempos. Assim, com Artistas como Adriano Correia de Oliveira, Fausto Bordalo Dias, Zeca Afonso, José Mário Branco, Manuel Freire, Paulo de Carvalho, Sérgio Godinho, Brigada Victor Jarra, Quarteto 1111, entre muitos, muitos outros... não compreendo a tamanha importância dada a esta "intervenção", que, sinceramente, não vejo a força, o impacto que possa ter/tem na sociedade de hoje, nos tempos de agora. Talvez se a partir desta mais artistas criem, novamente, uma "Era da intervenção", talvez venha compreender, vagamente, esta quantidade de papel e de elogios desperdiçados. Por agora, ainda não compreendo, não louvo, nem sequer aprecio.

Despeço-me, por hoje.
Talvez volte amanhã.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

A Importância da Arte


"A arte é, provavelmente, uma experiência inútil; como a «paixão inútil» em que cristaliza o homem. Mas inútil apenas como tragédia de que a humanidade beneficie; porque a arte é a menos trágica das ocupações, porque isso não envolve uma moral objectiva. Mas se todos os artistas da terra parassem durante umas horas, deixassem de produzir uma ideia, um quadro, uma nota de música, fazia-se um deserto extraordinário. Acreditem que os teares paravam, também, e as fábricas; as gares ficavam estranhamente vazias, as mulheres emudeciam. A arte é, no entanto, uma coisa explosiva. Houve, e há decerto em qualquer lugar da terra, pessoas que se dedicam à experiência inútil que é a arte, pessoas como Virgílio, por exemplo, e que sabem que o seu silêncio pode ser mortal. Se os poetas se calassem subitamente e só ficasse no ar o ruído dos motores, porque até o vento se calava no fundo dos vales, penso que até as guerras se iam extinguindo, sem derrota e sem vitória, com a mansidão das coisas estéreis. O laço da ficção, que gera a expectativa, é mais forte do que todas as realidades acumuláveis. Se ele se quebra, o equilíbrio entre os seres sofre grave prejuízo."

Agustina Bessa-Luís, in 'Dicionário Imperfeito'



Para mim, uma excelente visão do que é a arte e o que era de nós sem ela: Não seríamos, sequer.



quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Tia Em...

Caso em questão n.º 5:

Cara Tia Em,
A minha sogra insiste em fazer carne assada sempre que o meu marido e eu lhe fazemos uma visita, apesar de saber que sou vegetariana desde sempre. O que devo fazer da próxima vez que isso acontecer?

Fumegante em South Royalton


Cara Fumegante,
Torça o nariz e vá-se embora.


(...)


Cara Tia Em, penso. Tive de fazer uma segunda hipoteca da casa para pagar a conta da água. O que devo fazer?

Aflito de Townsend.


Caro Aflito,
Beba menos.


(...)


Cara Tia Em:
Ultimamente tenho sonhado com o meu ex-marido, devo considerar isto como um sinal divino, e telefonar-lhe para dizer olá?

Com insónias em Strafford


Cara com Insónias:
Sim, mas eu não lhe diria que estava a telefonar porque ele é a estrela principal dos seus sonhos. A menos que ele por acaso diga, "Caramba, é tão estranho que tenhas telefonado hoje, é que sonhei contigo ontem á noite."

Tia Em


(...)



Tia Em é uma personagem de um livro que ando a ler e é como que uma "conselheira", e todos este conselhos (os 3 aqui apresentados), e outros, são dados por meio de uma coluna num jornal. Achei engraçado as suas respostas e super descontextualizado no livro em si. Chama-se "No seu mundo" de Jodi Picoult e é sobre um jovem com Síndrome de Asperg e os seus problemas, paranóias, vivências,...



Uma, moderadamente, boa noite!